domingo, 9 de janeiro de 2011

A Cruz dos Celtas - Capitulo I


Algo inesperado

Se tivessem dado com uma viga de aço na cabeça de Pedro, a reacção teria sido menos violenta. Sentia-se como se o coração lhe quisesse fugir do peito. A respiração acelerou tanto que quem o visse nesse momento poderia jurar que acabara de correr uma maratona.
“Calma, Pedro! Tu tiras-me do sério. Eu queria dizer-te isto de uma forma mais suave… Mas como é que consigo isso contigo a seres mais teimoso que uma mula?” reagiu Luz ao estado de espírito de Pedro.
“Porquê ele? Mas porque é que o meu avô mandou uma carta aquele filho-da-mãe? O que é que se passa afinal?” disse Pedro hiperventilando e pausando em cada palavra como se estas custassem a sair.
“Porquê? Porque o teu avô, ao contrário de ti, sabia que o André não teve culpa de nada do que aconteceu. O teu avô sabia disso, a Maria e eu sabíamos disso, e no fundo eu continuo a achar que tu sabes disso. Como não queres culpar quem é verdadeiramente culpado, dirigis-te a culpa para o André.” afirmou Luz enquanto enchia um copo com um liquido azulado de uma garrafa que havia tirado da sua mala.
“Vieste preparada. Já sabias da reacção. E a poção toma-a tu! Não preciso de “calma”, percebes?” disse Pedro levantando-se e sentindo-se crescer perante Luz.
“Estúpido! Os teus truques não resultam comigo.” riu-se Luz “Eu sei o que tu sabes… Conheço-te… Sei o que tas a sentir. Não vás por ai!” disse Luz enquanto esticava o copo a Pedro. Ele respirou fundo e aceitou o líquido que a amiga lhe oferecia. A poção cheirava bem. Uma mistura de canela, baunilha e mais qualquer coisa.
“Genciana?” perguntou Pedro franzindo o sobrolho.
“Claro… Já esqueces-te? Por todos os Poderes… ‘Tas mais parvo…!” riu Luz.
Pedro respondeu com uma careta e bebeu o líquido de uma assentada. Era doce. A canela produziu logo os seus efeitos aquecendo-o à medida que ia descendo até ao estômago. A genciana iria entrar em acção mais tarde, mantendo a sensação de calma.
“Pronto… o bebé já tomou o remédio. Agora fazes o favor de me explicar que raio de parvoíce vem a ser essa de uma carta do meu avô para o… André.” disse Pedro desdenhosamente ao pronunciar o nome do rapaz. Luz abanou a cabeça e sentando-se num pequeno cadeirão tirou uma carta dobrada ao meio.
“Isto foi o que o teu avô enviou ao André. Está com a data de 2004. Acho melhor sentares-te Pedro” disse enquanto olhava para Pedro.
O recostou-se no sofá sentindo os efeitos da genciana e da canela no seu corpo. Mas havia mais qualquer coisa… Algo que lhe abria os sentidos. O deixava desperto.
“A data da carta é de segunda-feira, dia 5 de Julho de 2004. Lembras-te desse dia Pedro?” perguntou a medo Luz.
Como poderia esquecer. O dia em que quase perdeu a vida. Pedro passou a mão ao de leve pelo pescoço onde a pele pálida de uma cicatriz rodeava-o. Um arrepio percorreu o seu corpo ao recordar os minutos que antecederam o ataque que o colocou no hospital durante 2 meses. Na sua mente André deveria ter estado lá. Foi lá que se combinaram encontrar. Era o seu melhor amigo. Que diabos… Como é que o seu próprio irmão lhe tinha falhado.
“Sim, Luz… Lembro-me desse dia! Como queres tu que me esqueça. O maldito do espelho faz questão de me lembrar todos os dias do que me aconteceu. Todas as vezes que tenho que olhar para a minha cara… O meu pescoço lembra-me do que aconteceu. O frio da lâmina. O calor do sangue. A dor… Sim… Lembro-me bem demais de tudo!” respondeu Pedro lutando contra as lágrimas que teimavam em querer sair. “Lembro-me também de onde foi e porque estava lá. Por isso não me peças para ter calma perante esse nome. Fui traído da pior maneira possível. Pelo meu próprio irmão. Pela minha própria namorada.” disse Pedro enquanto enterrava o rosto nas mãos.
“Sim… Foste traído. Mas não pelo André. E TU sabes disso. A Morgana nunca prestou. Que raio Pedro… Eu fartei-me de te avisar do que ela era capaz. Do que ela FOI capaz de fazer. Sim, o André faltou ao teu compromisso. E sim, ele esteve com a Morgana. Mas não a fazer o que tu pensas. A Morgana drogou-o e...” disse Luz enquanto estendia a carta ao amigo.
“Luz… o André pode dizer o que quiser e inventar mil e uma artimanhas para se desculpar do que fez. Mas a mim ele não me engana. Se a Morgana não prestava, olha que ele não lhe fica atrás. Estão bem um para o outro. Merecem-se!” disse Pedro mal disfarçando a mágoa que estas palavras produziam no seu peito.
Pedro agarrou o pedaço de papel. Parecia que tinha sido lido e relido vezes e vezes sem conta. Conseguia sentir a energia vital do seu avô misturada com a do seu irmão. Conseguia sentir as emoções de quem estava a escrever e a ler. O medo e a angustia do seu avô no dia que tinha sido atacado. A desilusão e arrependimento de André ao ler a carta do avô.

André…

Quando leres esta carta eu já devo ter partido. É assim que o quero e assim que deverá ser feito.
Hoje, no dia em que te escrevo, estive com o teu irmão no hospital até a cirurgia acabar. Sei que ele vai ficar bem… mas também sei que o que aconteceu hoje vai trazer complicações para ambos.
Depois de sair do hospital fui a casa da Morgana para lhe dar algumas notícias do teu irmão. Acho que consegui perceber o que se passou quando vi o teu casaco na cadeira da sala. Confrontei-a com a situação e ela apenas se riu de tudo… Um riso histérico, algo que eu não ouvia há muito tempo.
Afasta-te dela, André. Afasta-te… Ao contrário do teu irmão tu não foste totalmente treinado nas antigas tradições. Contudo tem atenção. A Wicca tem as suas maravilhas mas também tem os seus malefícios.
Sei que algo de muito importante deve ter acontecido para ires a casa da Morgana. Peço-te mais uma vez. Afasta-te dela, filho.
Tenta procurar o teu irmão e explicar-lhe o que se passou hoje.

Um beijinho do avô que vos adora.

Jorge”

A carta era simples, e sucinta, como se escrita a pressa. Mas não era essa a sensação que tinha. As emoções eram contraditórias ao que tinha lido.
“Luz… Isto não faz sentido! O que sinto não bate certo com a maneira como a carta está escrita. Tu conhecias o meu avô. Ele nunca deixava as coisas a meio dizer… tinha a distinta mania de explicar tudo até a exaustão. Mas esta carta… é quase como se ele tivesse medo que alguém a lesse antes do… do André.” disse Pedro entregando a carta de volta a amiga.
“Sim. A Maria disse o mesmo. As visões dela sobre a carta foram desfocadas… difusas, como se algo impedisse de ver claramente. E sabes que a Maria nunca vê desfocado… Nunca!” disse Luz levantando-se num movimento fluído e gracioso.
“É verdade… A Maria nunca falha uma visão.” disse Pedro com um sorriso.
Nesse instante a campainha da porta soou. Alguém tocara à porta de Pedro.
“Bem… tenho dias de não haver uma única visita. Hoje, pelo visto, é o dia do “vamos visitar o Pedro”, não achas?” disse Pedro dirigindo-se para porta da casa.
“Quem é?” perguntou Pedro ao abrir a porta
“Olá… Pedro…” disse uma voz masculina do outro lado da porta. Uma voz que ele conhecia bem… e que esperava não voltar a ouvir.
“André…”disse Pedro ficando imóvel junto ao seu irmão.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A Cruz dos Celtas - Prólogo


Reencontro

A noite tinha um cheiro diferente… Algo estava diferente. Cheirava a nevoeiro, o mesmo cheiro da sua infância passada junto do mar.
A lua espreitava envergonhada através da densa névoa e espalhava uma luz quase espectral pelas ruas molhadas e sombrias…
“Que raio de Verão” pensou Pedro enquanto vasculhava os bolsos das calças em busca das chaves. “Ora frio, ora quente, mas quem é que entende isto?!”
Enquanto abria a porta de casa foi saudado pelo seu amigo de quatro patas, num frenesim de lambidelas e pulos. “Calma, Anúbis… Já cheguei, pequenino” disse, ao mesmo tempo que fazia festas na cabeça do cão. Pequenino era um termo carinhoso para um cão daquele tamanho.
Um cruzamento entre um Labrador e um Perdigueiro tinha produzido um cão, que, quando se empinava nas patas traseiras, tinha 1,80 metros, ou seja, ficava do tamanho de Pedro. Apesar disso, tinha herdado o espírito jovial e brincalhão dos Labradores e a curiosidade dos Perdigueiros. Combinação explosiva.
Pedro também era um “misto”de “raças”. A sua mãe era irlandesa e o seu pai grego. O seu avô paterno era português. Foi com ele que veio viver depois de os seus pais terem falecido num acidente nos Alpes. Uma curiosa mistura também… Um rosto moreno de olhos verdes penetrantes, quase tão verdes como as planícies da Ilha Esmeralda. No entanto mantinha o espírito exaltado característico dos povos mediterrânicos. Era um amigo verdadeiro mas um temível rival.
Tinha herdado mais qualquer coisa. Algo que tinha sido transmitido pelo lado da sua mãe. O sangue Celta corria-lhe nas veias… Esse sangue carregado de magia e mistério.
Pedro era um Wiccan. Um praticante da antiga religião, pertencente a uma tradição antiga de bruxas e druidas.
Ao passar a porta de casa algo captou a sua atenção. Uma presença familiar, amiga, mas que ao mesmo tempo não esperava ver por aqui.
“Luz…! Há quanto tempo?!” perguntou Pedro olhando para um canto escuro do pátio que dava acesso à habitação. “Continuas com a mania de entrar a socapa na minha casa.” disse a rir enquanto acendia a luz do pátio.
“Chiça!!! Será que nunca te consigo surpreender?” perguntou a amiga enquanto o abraçava.
“Nunca conseguiste em 10 anos e não ias começar agora!” disse Pedro com um sorriso de malícia. Os dois amigos sempre tiveram uma ligação especial. Pedro conseguia “sentir” Luz onde quer que ela estivesse. Luz sabia sempre o que o amigo estava a sentir. Algo que não sabiam explicar. Simplesmente acontecia
“O que te trás a Portugal? E logo a Odemira?” perguntou curioso.
“Bem… A verdade é… humm…” disse Luz procurando as palavras que lhe fugiam da mente.
“Ah!...” respondeu Pedro conseguindo perceber a hesitação de Luz. “Ele de novo” disse disfarçando a raiva que lhe crescia no peito.
“Calma. Não precisas de ficar assim. Ele só quer falar contigo… Apenas isso. E vê se te acalmas que não é razão para essa fúria toda.” disse Luz enquanto despenteava o amigo.
Pedro olhou longamente para os cabelos ruivos de Luz. Parecia saída de um qualquer filme sobre vampiros. Pele branca como a neve, lábios carnudos vermelhos e uma moldura de cabelos ruivos encaracolados que lhe enquadravam o rosto de uma forma quase celestial.
“Vamos para dentro. A humidade está a “enferrujar-me”…” disse torcendo os lábios.
A habitação era ampla mas modestamente decorada. Apenas dois sofás, uma mesa e algumas cadeiras que compunham a sala. Duas enormes estantes nas paredes albergavam um sem número de livros.
“Vejo eu a tua paranóia por livros continua… Ainda pretendes ter uma biblioteca em casa?” disse Luz enquanto percorria as estantes com as mãos.
“Já são perto de 300 livros. Acho que já consegui uma colecção razoável.” afirmou Pedro não conseguindo disfarçar um sorriso de orgulho. De repente ficou mais sério.
“Epá! Desembucha o que vieste cá fazer. O que é que o André quer de mim. E logo agora?” proferiu Pedro enquanto se sentava um sofá perto de uma grande janela que deixava entrar a luz que vinha dos candeeiros da rua.
“Raios te partam. Passaram 6 anos e mesmo assim tu não consegues esquecer. Pedro, segue em frente. O André recebeu uma carta especial. Algo que nenhum de nós estava a espera e que mexeu com todos!” reagiu Luz às afirmações de Pedro.
“Esquecer? Aquele sacana quase que acaba comigo. Estive por um fio por conta das brincadeiras dele e queres que eu esqueça? E o que tenho eu que ver com o raio da carta que ele recebeu?” disse Pedro olhando nos olhos da amiga.
“É simples… É uma carta do teu avô!!” retorquiu Luz.